Castelo

Era uma vez, um rei muito temperamental e insatisfeito. Possuía muitas riquezas e tinha como rainha uma bela esposa que o amava de verdade. Mas, mesmo nos dias mais ensolarados e belos, ele se quedava triste ou aborrecido.

Irritava-se por pouco, até mesmo com o grito de uma ave ou uma nuvem mais escura no céu. Os mais belos presentes, de todas as partes do mundo, eram trazidos a ele, mas nenhum deles o alegrava. Artistas de todas as artes, como mímicos, palhaços, dançarinos e poetas eram convidados para entretê-lo, mas nada o satisfazia. Ninguém no reino sabia o que fazer para agradá-lo.

Era muito raro, mas acontecia: algumas manhãs ele acordava se sentindo bem, disposto e alegre, mas logo este estado de ânimo desaparecia e o rei voltava a cair na mais profunda melancolia. Assim, o que mais ele desejava era algo que o fizesse feliz ou em paz para sempre. Como fixar aqueles poucos momentos de felicidade que às vezes sentia, de modo que nunca passassem?

O rei então juntou seus três conselheiros e lhes ordenou que pensassem em um presente que o fizesse feliz para sempre. E deu o prazo de sete dias para que chegassem a uma solução. Não era fácil. Porque o soberano tinha não só tudo o que o dinheiro pode comprar, como também era abençoado com coisas que o dinheiro não compra, como o amor de sua esposa e o respeito de seus súditos.

O tempo estava se esgotando e, não tendo ideia nenhuma, os conselheiros decidiram procurar, às escondidas, um sábio com fama de louco, que morava numa cabana nas cercanias do reino. Poderia um homem tão pobre, de vida tão simples, ser capaz de resolver este enigma tão complicado? – perguntavam-se uns aos outros.

Mas eles estavam desesperados, por isso, secretamente, foram até a casa simples do sábio, nas montanhas.

– A solução é muito fácil – sorriu o sábio.

Então ele sugeriu que fosse feito um anel para o rei. Deveria ser um anel comum, sem pedraria ou outro ornamento, exceto uma frase gravada: ”Isto também passará”

O rei deveria usá-lo sempre. E olharia para o anel, na alegria ou na dor.

Conta-se que depois daquele presente, o rei nunca mais foi o mesmo e viveu vida longa e em paz.

Sempre que estava muito feliz ou muito triste olhava para o anel e lia a frase mágica: “Isto também passará”

 

Este é um conto dito “conto de sabedoria” da tradição sufi. Os sufis eram pessoas que, influenciadas por diversas religiões, criaram entre os séculos IX e XII na India e na Pérsia, uma corrente espiritual chamada sufismo, marcada pelo uso de dança e música para o contato com a divindade, que seria a própria natureza. Esta definição bem como uma versão da história acima você pode encontrar no livro Histórias de quem conta histórias, da Cortez Editora. Publicado no Blog Histórias em Movimento